A flora e a fauna

“Estou meio decepcionado com as coisas do futuro.”

Augusto Ruschi. Folha de São Paulo, 19 de janeiro de 1986.

A devastação das florestas, com a respectiva dizimação das espécies animais que as habitam, caracteriza a história do Brasil desde os seus primórdios. Não custa lembrar que a primeira riqueza extraída do território pelos colonizadores foi a árvore do pau-brasil, cuja exploração febril e continuada resultou no abate de vastas regiões florestais ao longo da costa brasileira. Os diversos “ciclos” econômicos posteriores que marcaram a colonização do Brasil, como o do ouro e o do café, por exemplo, também promoveram a derrubada sistemática das matas e florestas que cobriam imensas faixas territoriais, de norte a sul, de leste a oeste, indiscriminadamente.

Pouco ou nada se falava sobre a necessidade de preservação da natureza exuberante e opulenta, de um cuidado necessário com o meio ambiente, para que a vida de todas as espécies existentes estivesse assegurada. O princípio básico do processo de colonização foi o da conquista, da tomada, do apossamento; a empresa colonizadora foi muito mais o desejo de triunfar sobre o desconhecido e o novo, de tirar o máximo proveito possível do objeto conquistado, de fazer valer a pena os riscos e os custos da grande empreitada representada pelas navegações e pelas descobertas. A recompensa esperada sempre foi a riqueza abundante, a profusão de esplendores, a suntuosidade. A fartura, a prosperidade e a bonança deveriam se expressar na forma de bens materiais de grande valor, que proporcionassem o enriquecimento rápido e farto de todos os envolvidos na exploração colonial como seus agentes.

Esse traço característico marcante da empreitada colonial no Brasil fincou raízes profundas na conformação de uma mentalidade predadora que resiste à passagem do tempo. Muito embora se tenha desenvolvido aqui alguma consciência ambiental, nas últimas décadas, o esforço pela preservação da natureza, que garanta a integridade e a perenidade do meio ambiente, tão necessário à vida no planeta, tem se mostrado ainda muito frágil diante das investidas que volta e meia assombram os ambientalistas e demais defensores das florestas, como os indígenas, por exemplo. Diretamente ligadas a uma maior ou menor incidência de políticas públicas defensivas e de fiscalização, essas investidas predatórias tendem a se ampliar nas brechas deixadas tanto pela legislação quanto pelo controle efetivo.

Dotado de imensas áreas florestais e de extraordinárias fontes de recursos naturais, o território brasileiro está passando, no momento presente, por uma nova onda de destruição ambiental, que se manifesta na forma de queimadas e desmatamentos, de intensificação do uso de agrotóxicos, de tentativa de supressão de áreas indígenas demarcadas, de garimpos ilegais. De novo, a expectativa de ganhos espetaculares se sobrepõe a toda e qualquer perspectiva de preservação e cuidado. É como um retorno ao modo colonial de pensar e agir que a tudo sobrevém, sujeitando todos os valores e princípios até então compartilhados à promessa do lucro rápido e sobejo.

Um dos maiores defensores do patrimônio natural brasileiro foi Augusto Ruschi — agrônomo, ecologista e naturalista capixaba, que dedicou a vida inteira ao seu amor pela natureza. Responsável por 80% de tudo o que se sabe no mundo sobre os beija-flores e pela descoberta e pela descrição de nada menos do que 45 espécies de orquídeas, Ruschi alertou para a tragédia da provável desertificação da Amazônia. Em plena década de 1980, previa uma degradação acelerada dessa que é a maior floresta tropical do mundo, acossada pelo desmatamento frenético e criminoso. Com base nos dados do IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), o cientista denunciou que a Amazônia já trilhava o caminho da desertificação, pela ação de milhares de madeireiros capixabas que se deslocavam em massa para a região amazônica em busca da matéria-prima para as suas serrarias e oficinas. (Jornal do Brasil, 1º de setembro de 1985, p.1 e 14)

Segundo Ruschi, a manufatura madeireira capixaba já tinha sido responsável pela destruição das ricas florestas do Espírito Santo e do sul da Bahia, num processo que se acelerara dramaticamente na década de 1970. Em seguida a essa devastação, o eucalipto passara a ser plantado em larga escala no território capixaba, promovendo a secagem dos córregos e dando um tiro de misericórdia na agricultura. O empobrecimento dos solos era uma consequência inevitável da eliminação da cobertura florestal.  Por outro lado, as indústrias de laminação e as serrarias, famintas de árvores de toda espécie, começaram a receber cerca de 8 mil metros cúbicos de madeiras nobres da Amazônia, por mês, aumentando assim a ruína da floresta.

O grande perigo, no seu entendimento, é que os solos tropicais são “lavados”, isto é, assim que perdem a proteção florestal, seus elementos nutrientes são levados para as camadas mais profundas e se tornam capazes de sustentar apenas uma vegetação mais pobre, como a caatinga. Depois disso, para a desertificação, é um passo.

Augusto Ruschi sinalizava um caminho, apesar do profundo desânimo que rondava o seu espírito: a educação das crianças para a preservação do meio ambiente. A salvação poderia estar no futuro, porque o seu presente parecia indicar a falência total de qualquer possibilidade de sensibilizar os adultos para o gravíssimo problema da destruição ambiental. Mal sabia ele que, tempos depois, o País estaria de novo assombrado por uma nova onda de devastação sem precedentes, apesar de tantos esforços feitos por ecologistas e ambientalistas de todos os matizes.

Volto à questão da mentalidade, acrescentando a ela os hábitos e costumes da população em geral. Tanto quanto a flora, a fauna brasileira sempre padeceu de agressões sistemáticas. A luta pela preservação das espécies ameaçadas de extinção ou simplesmente afetadas pela caça predatória indiscriminada também tem se revelado árdua e frustrante. Os órgãos de defesa estão sempre um passo atrás: seja nos recursos disponibilizados para fiscalização, seja no pessoal especializado e comprometido com a preservação. Os predadores estão vencendo as disputas.

“Centenas de tartarugas da reserva biológica do rio Trombetas, no Pará, foram degustadas nas mesas da classe média alta de Belém e Manaus nas festas de fim de ano. A denúncia do comércio ilegal dos quelônios e de seus ovos no Pará e no Amazonas é do ecólogo Cleber Alho, que voltou consternado da região ao verificar que não nasceram 500 mil tartarugas que se previam neste mês de janeiro, nos tabuleiros de areia do Trombetas.” (Jornal do Brasil, 15 de janeiro de 1986, p.14)

Professor da Universidade de Brasília e pesquisador dos quelônios do rio Trombetas, Cleber Alho constatou que não havia ovos nos tabuleiros porque, em outubro do ano anterior, quando centenas de tartarugas subiram à praia para desovar, a reserva foi invadida por pessoas que capturaram todos os animais e os ovos que puderam. Na ocasião, a reserva estava desguarnecida de proteção porque cinco dos oito funcionários do IBDF responsáveis pela vigilância da área estavam hospitalizados, em decorrência da queda de uma antena da Embratel sobre o banco onde haviam ido receber os salários do mês anterior, no município de Oriximiná.

Os pobres animais são muito facilmente capturados quando sobem às praias para desovar, durante a noite. Enquanto estão ocupadas escavando seus ninhos na areia, os caçadores invadem as praias e viram de casco para baixo o maior número de tartarugas que conseguem. De manhã cedo, enchem as suas embarcações com os animais e seus ovos, e partem em viagem para os centros consumidores de Belém e Manaus.

“Uma festa de aniversário ou de casamento, ou uma data importante para o homem rico, na Amazônia, é comemorada com o sarapatel de tartaruga, uma das iguarias em que é usada a carne do quelônio. E pagam o preço que for pedido. O resultado é que o caboclo, que antes capturava um ou outro animal para o seu consumo, hoje persegue as tartarugas para vendê-las, num comércio ilegal. Além disso, os ovos desses animais passaram a ser supervalorizados pela indústria de cosméticos.” (Idem)

O pesquisador citado na reportagem não se limitou a denunciar a caça predatória das tartarugas no rio Trombetas. Apelou para a necessidade de proteção à reserva biológica, fundamental para a preservação da espécie, mas sugeriu que se fizesse uma criação de quelônios nos lagos das grandes hidrelétricas, para fins de aproveitamento nutricional desses animais, sem promover a devastação ambiental e a caça indiscriminada. Ou seja, soluções existem sempre. Tudo é uma questão de vontade política.

Na mesma página do jornal, uma reportagem com título que mais parece uma piada: “General não quer tropa defendendo jacarés”!  

Não se trata de uma piada, mas de uma resposta do comandante militar da área à solicitação dos governos estaduais do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul para que as forças armadas realizassem uma intervenção na repressão ao contrabando de peles de jacarés, onças pintadas e outros animais silvestres, que estaria acontecendo de forma incontrolável no Pantanal, por falta de estrutura dos órgãos estaduais responsáveis pela preservação da flora e da fauna daquela imensa região. Embora os governos estaduais alegassem não dispor de polícia florestal, viaturas, recursos financeiros e equipamentos para o controle efetivo da extensa área pantaneira, o general responsável ponderou que suas tropas não poderiam se responsabilizar diretamente pela solução do problema, pois isso não seria uma atribuição constitucional das forças armadas. Enfim, mais uma evidência da tremenda dificuldade das autoridades competentes para enfrentar o gravíssimo drama da devastação ambiental que caracteriza a história brasileira.